Moro x Sandro Alex: as duas forças que disputam o Palácio Iguaçu em 2026
- Marcio Nolasco

- 9 de ago.
- 6 min de leitura
Reportagem especial — Eleições ao Governo do Paraná 2026
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
Com o fim das convenções partidárias de julho e agosto, a disputa pelo governo do Paraná ganhou contornos definitivos. De um lado, o senador Sergio Moro (PL), ex-juiz da Lava Jato e nome que lidera todas as pesquisas divulgadas até agora.
Do outro, o deputado federal Sandro Alex (PSD), escolhido a dedo pelo governador Carlos Massa Ratinho Junior para dar sequência ao projeto político que governa o estado desde 2019. Entre os dois, um terceiro nome de peso, Requião Filho (PDT), e o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (MDB), que despontou como vice na chapa de Sandro Alex mas depois deixou o PSD. Esta reportagem compara as trajetórias, as bases políticas e as redes de apoio municipal dos dois principais postulantes.

1. Sergio Moro: do gabinete da 13ª Vara Federal ao Senado
Nascido em Maringá em 1972, Sergio Moro é formado em Direito pela Universidade Estadual de Maringá e fez mestrado e doutorado na Universidade Federal do Paraná. Sua trajetória pública não nasceu nos palanques municipais, mas na magistratura federal: como titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, ele se tornou nacionalmente conhecido ao conduzir os principais processos da Operação Lava Jato, entre eles o que resultou na condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do triplex do Guarujá — decisão de 2017 que, anos depois, o STF anulou por reconhecer parcialidade de Moro na condução do caso.
Esse capital político o levou direto ao primeiro escalão da política nacional: em 2019, Moro deixou a magistratura para assumir o recém-criado superministério da Justiça e Segurança Pública no governo Jair Bolsonaro, cargo que ocupou até abril de 2020, quando pediu demissão após divergências com o então presidente sobre a exoneração do superintendente da Polícia Federal. Depois de uma passagem breve pelo Podemos, foi eleito senador pelo Paraná em 2022 pela União Brasil, com votação recorde no estado. Em 2026, rompeu com a União e se filiou ao PL, marcando uma reaproximação com o grupo político de Bolsonaro — o mesmo PL que já lançou sua candidatura ao Palácio Iguaçu.
Moro chega à disputa estadual sem nunca ter ocupado um cargo executivo municipal ou estadual. Sua força eleitoral vem, sobretudo, do reconhecimento de nome construído na Lava Jato e do desempenho expressivo nas urnas em 2022. É um perfil de "outsider" da política paranaense tradicional, ainda que hoje esteja plenamente integrado a ela através do Senado.
2. Sandro Alex: a construção dentro da máquina estadual
Sandro Alex Cruz de Oliveira nasceu em Ponta Grossa, nos Campos Gerais, é formado em Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e atua também como radialista — profissão do pai, Nilson de Oliveira, dono de emissoras de rádio na região. Diferentemente de Moro, sua trajetória é a de um político de carreira construída de baixo para cima: tentou a Prefeitura de Ponta Grossa em 2008, sem sucesso, e só então migrou para a Câmara dos Deputados, onde está desde 2010, hoje em seu quarto mandato — foi o quinto deputado federal mais votado do Paraná no pleito mais recente.
O ponto central de sua biografia recente, porém, é a gestão estadual: Sandro Alex se licenciou da Câmara em dois períodos (2019-2022 e 2023-2026) para comandar a Secretaria de Infraestrutura e Logística nos dois mandatos de Ratinho Junior, à frente de obras rodoviárias, portuárias e de mobilidade que o governo estadual usa como principal vitrine eleitoral. Também preside o PSD no Paraná. Em abril de 2026, Ratinho Junior — impedido de disputar reeleição — anunciou publicamente Sandro Alex como seu "sucessor natural", movimento que provocou saídas relevantes do partido, caso do ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca, que deixou o PSD rumo ao MDB, e do deputado estadual Alexandre Curi, que migrou para o Republicanos.
3. As redes municipais: onde cada um é mais forte
É na relação com os 399 prefeitos do Paraná que as duas candidaturas mais se diferenciam.
Sandro Alex e a máquina do PSD. O PSD paranaense é hoje o maior partido do estado em termos de prefeituras: administra cerca de 201 dos 399 municípios paranaenses, mais da metade do total, e reúne mais de 44 mil filiados. Essa capilaridade é herança direta dos oito anos de governo Ratinho Junior, período em que a sigla se tornou o principal canal de acesso a recursos estaduais para prefeitos de todas as regiões. A convenção que oficializou Sandro Alex, em Curitiba, reuniu cerca de 5 mil pessoas, incluindo prefeitos, vereadores e lideranças municipais de todo o estado, além do próprio governador, do vice-governador Darci Piana e do presidente nacional do partido, Gilberto Kassab. O discurso de campanha de Sandro Alex é construído justamente sobre essa base: ele se apresenta como o nome da "continuidade" do modelo de gestão que, segundo o próprio governo, elevou o Paraná à condição de quarta maior economia do país, com destaque para o programa estadual de pavimentação e a ampliação do Porto de Paranaguá.
Sergio Moro e a articulação em construção. Sem trajetória prévia como gestor municipal ou estadual, Moro vem tentando construir sua própria rede de prefeitos e vereadores por meio dos partidos aliados — PL, Podemos e Novo. Um exemplo recente é o encontro promovido pelo Podemos, sob coordenação do deputado federal Felipe Francischini, que reuniu lideranças de mais de 50 municípios paranaenses, incluindo prefeitos e vereadores de diferentes regiões e um grupo expressivo de Curitiba; participou do evento, entre outros, a prefeita de Ponta Grossa, Elizabeth Schmidt. Moro tem afirmado publicamente que pretende "defender os aliados que permanecerem ao lado do projeto", em um discurso que busca atrair prefeitos hoje ligados a partidos menores ou insatisfeitos com a distribuição de recursos do governo estadual. Ainda assim, sua base municipal é numericamente menor e mais recente do que a estrutura já consolidada do PSD em torno de Sandro Alex.
4. Propostas de governo
Nos discursos de convenção, os dois candidatos sinalizaram agendas distintas:
Sergio Moro defende a criação de uma "Tabela SUS Paranaense" para ampliar o atendimento da rede pública de saúde e reduzir filas, a construção do primeiro presídio estadual de segurança máxima do Paraná, a ampliação do ensino integral e uma agenda de corte de impostos e desburocratização — que ele resume na promessa de usar "uma faca, ou uma motosserra" contra regulações consideradas excessivas. Ele se apresenta como um contraponto ao cenário político e econômico do governo federal.
Sandro Alex centra sua campanha na continuidade do modelo Ratinho Junior, com ênfase em infraestrutura (rodovias pavimentadas em concreto, aeroportos regionais, mobilidade urbana), parceria direta com prefeituras e manutenção do ritmo de crescimento econômico do estado, hoje classificado pelo governo como a quarta maior economia do Brasil.
5. O que dizem as pesquisas
Todas as pesquisas divulgadas desde julho de 2026 — Quaest/Genial, Paraná Pesquisas, Neokemp e Índice — apontam Sergio Moro na liderança folgada em cenários estimulados de primeiro turno, com vantagens que variam de cerca de 8 a mais de 20 pontos percentuais sobre o segundo colocado. Na pesquisa Quaest de final de julho, por exemplo, Moro aparecia com 39% das intenções de voto, contra 18% de Requião Filho, 12% de Rafael Greca e 7% de Sandro Alex — que, segundo o mesmo levantamento, ainda era desconhecido por 68% dos entrevistados, o que ajuda a explicar a distância entre a popularidade do governador Ratinho Junior e o desempenho inicial de seu candidato. Um levantamento mais recente do Instituto Índice, já após as convenções, reduziu a distância: Moro apareceu com 35,3% e Sandro Alex com 27,6%, com Requião Filho em terceiro, com 19,5%. Em simulações de segundo turno, Moro venceria Sandro Alex por margens amplas em todos os institutos consultados.
6. Diferenças-chave, lado a lado
Sergio Moro (PL) | Sandro Alex (PSD) | |
Origem política | Magistratura federal / Lava Jato | Rádio e política municipal em Ponta Grossa |
Primeiro cargo eletivo | Senador (2022) | Deputado federal (2010) |
Experiência executiva | Ministro da Justiça (2019-2020) | Secretário estadual de Infraestrutura (2019-2026) |
Relação com o governo atual | Oposição / contraponto | Escolhido por Ratinho Junior como sucessor |
Base municipal | Em construção via PL, Podemos e Novo | Estrutura consolidada do PSD (201 de 399 prefeituras) |
Vice anunciado | Edson Vasconcelos (PL) | Ainda não definido (Rafael Greca deixou a chapa) |
Posição nas pesquisas (jul/ago 2026) | Liderança em todos os institutos | Terceiro ou quarto lugar |
Uma disputa entre dois modelos
O confronto Moro x Sandro Alex resume, no fundo, dois caminhos diferentes para se chegar ao Palácio Iguaçu: de um lado, o capital simbólico de um nome nacionalmente conhecido, mas sem experiência de gestão executiva nem rede municipal própria consolidada; de outro, a força de uma máquina partidária que hoje comanda a maioria das prefeituras do estado, mas que ainda enfrenta o desafio de apresentar seu candidato a um eleitorado que, segundo as próprias pesquisas contratadas pela base governista, majoritariamente ainda não o conhece. Como a distância nas pesquisas diminuiu entre julho e agosto, a campanha promete se acirrar nas próximas semanas, com o registro das candidaturas previsto até 15 de agosto e o início da propaganda eleitoral nas ruas a partir do dia seguinte.
Fontes consultadas: Metrópoles, Correio Braziliense, H2FOZ, Gazeta do Povo, PSD Paraná, Portal24, Bem Paraná, Gazeta do Bairro, aRede, NPDiário, Paraná Portal, Diário do Sudoeste, Blog do Zé Otávio, Jornal Correio do Norte, Câmara dos Deputados e Wikipédia (verbetes de Sergio Moro, Roberto Requião e Requião Filho). Dados eleitorais de pesquisas Quaest/Genial (registro TSE nº PR-04818/2026), Paraná Pesquisas, Neokemp e Índice, divulgados entre junho e agosto de 2026.
Reportagem produzida com base em fontes públicas disponíveis até 9 de agosto de 2026. O quadro político-eleitoral pode mudar até o primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026.



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