Moro lidera. Sandro cresce. Mas a eleição para o Governo do Paraná ainda está longe de "fechar a conta!"
- Marcio Nolasco

- 29 de jun.
- 5 min de leitura
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
A disputa entre recall e máquina política

As pesquisas divulgadas ao longo dos últimos meses mostram um cenário aparentemente consolidado: o senador Sergio Moro (PL) lidera com folga a corrida ao Governo do Paraná. Entretanto, uma leitura exclusivamente quantitativa pode induzir a conclusões precipitadas. Em política, intenção de voto medida mais de um ano antes da eleição representa muito mais o retrato da notoriedade dos candidatos do que necessariamente o resultado final das urnas.
Nesse contexto, a pré-candidatura do deputado federal Sandro Alex (PSD) merece uma análise mais cuidadosa. Embora apareça distante de Moro em diversos levantamentos, sua candidatura reúne um ativo que historicamente costuma produzir resultados eleitorais expressivos no Paraná: a transferência de capital político do governador Ratinho Junior.
A disputa, portanto, tende a ser menos entre dois candidatos e mais entre dois modelos de construção eleitoral.
Sergio Moro: o favorito natural

As pesquisas de institutos como Paraná Pesquisas e IRG colocam Sergio Moro na liderança em praticamente todos os cenários estimulados. Em alguns levantamentos, ultrapassa os 45% das intenções de voto, mantendo vantagem superior a vinte pontos sobre os concorrentes.
Essa liderança decorre de fatores relativamente claros.
1. Altíssimo reconhecimento de nome
Poucos políticos brasileiros possuem um nível de conhecimento público comparável ao de Moro.
Sua atuação na Operação Lava Jato produziu um patrimônio eleitoral que permanece extremamente forte no Paraná, especialmente entre eleitores de centro-direita.
Enquanto outros candidatos ainda precisam ser apresentados ao eleitorado estadual, Moro já chega conhecido.
Na ciência política isso é chamado de efeito recall, quando o eleitor identifica imediatamente um nome e associa valores positivos ou negativos sem necessidade de campanha intensa.
2. Eleitorado consolidado
Moro possui um eleitor fiel.
Mesmo enfrentando forte rejeição em setores da esquerda e críticas vindas de parte do bolsonarismo mais radical, mantém um núcleo eleitoral consistente.
Esse eleitor dificilmente migra durante a campanha.
Por outro lado, justamente por ser muito conhecido, também apresenta rejeição relativamente elevada, característica típica de candidatos nacionais.
3. O desafio da ampliação
A grande questão para Moro não é crescer.
É impedir que os adversários cresçam.
Campanhas longas costumam beneficiar candidatos menos conhecidos, que dispõem de espaço para expansão.
O desafio do senador será converter notoriedade em maioria eleitoral definitiva.
Sandro Alex: uma candidatura construída pela estrutura

Se Moro representa o capital político individual, Sandro Alex representa a força institucional do grupo governista.
Hoje sua candidatura não depende apenas de sua popularidade pessoal.
Ela depende principalmente do peso político do governador Ratinho Junior.
É justamente por isso que diversos levantamentos mostram uma diferença significativa entre cenários espontâneos e cenários nos quais o entrevistador informa quem é o candidato apoiado pelo governador.
Quando o apoio de Ratinho Junior é explicitado, Sandro Alex praticamente dobra seu desempenho em algumas pesquisas, aproximando-se dos principais concorrentes.
Esse dado talvez seja o mais importante de toda a eleição.
A força da máquina estadual
Na história recente do Paraná, governadores com elevada aprovação costumam exercer forte influência sobre suas sucessões.
Ratinho Junior chega ao último ano de mandato mantendo índices elevados de aprovação e boa avaliação administrativa. Esse cenário transforma sua capacidade de transferência eleitoral em um dos principais ativos da disputa.
Essa força se manifesta de diversas maneiras:
prefeitos aliados;
base parlamentar consolidada;
estrutura partidária organizada;
presença constante no interior;
capacidade de agenda administrativa.
Em campanhas estaduais, especialmente no interior do Paraná, essa engrenagem costuma fazer diferença.
O maior desafio de Sandro Alex
O problema político de Sandro Alex não é rejeição.
É desconhecimento.
Boa parte do eleitorado ainda não possui opinião formada sobre ele.
Esse aspecto possui dois lados.
Negativamente, dificulta sua consolidação.
Positivamente, oferece enorme potencial de crescimento.
Em ciência política, candidatos pouco conhecidos costumam apresentar maior elasticidade eleitoral.
Eles têm espaço para crescer conforme a campanha avança.
Interior contra regiões metropolitanas
Outro elemento relevante será a geografia eleitoral.
Moro
Sua força concentra-se principalmente nos grandes centros urbanos:
Curitiba;
Região Metropolitana;
Cidades médias.
É um eleitor mais identificado com pautas anticorrupção, segurança pública e liberalismo econômico.
Sandro Alex
Sua estratégia tende a privilegiar:
interior;
prefeitos - e aqui pode ter um ponto negativo visto a atuação de cada prefeito.
lideranças regionais;
agronegócio;
municipalismo.
Trata-se de uma campanha mais territorializada.
Em eleições estaduais, essa característica costuma ganhar importância conforme se aproxima o período eleitoral.
A variável Ratinho Junior
Nenhuma análise eleitoral do Paraná pode ignorar um personagem que sequer estará na urna.
Ratinho Junior.
Caso permaneça altamente popular até 2026, seu apoio poderá representar o principal fator de mudança na disputa.
Não seria a primeira vez que um governador bem avaliado consegue impulsionar um sucessor.
Por outro lado, transferências eleitorais nunca são automáticas.
O eleitor pode avaliar ao seu modo um governo e, ainda assim, preferir outro candidato.
Esse fenômeno já ocorreu diversas vezes na política brasileira.
O fator Bolsonaro
Outro componente importante envolve o campo conservador.
Sergio Moro disputa praticamente o mesmo espaço político ocupado pelo bolsonarismo moderado.
Caso receba apoio integral do ex-presidente Jair Bolsonaro, sua vantagem poderá se consolidar.
Entretanto, se houver divisão entre diferentes candidaturas da direita ou mudanças na estratégia nacional do PL, parte desse eleitorado poderá redistribuir seus votos.
Essa variável permanece aberta.
Quem chega mais forte hoje?
Observando exclusivamente os dados disponíveis, Sergio Moro larga em posição claramente privilegiada.
Sua liderança é consistente, aparece em diferentes institutos e demonstra estabilidade ao longo das pesquisas.
Mas a fotografia atual não encerra a eleição.
Sandro Alex talvez seja justamente o candidato com maior potencial de crescimento entre todos os concorrentes.
Sua candidatura ainda está em fase inicial de consolidação, mas reúne três ativos extremamente relevantes:
apoio do governador mais popular do estado;
estrutura partidária robusta;
baixa rejeição (dele, não do atual governador).
Conclusão
Se a eleição fosse realizada hoje, Sergio Moro seria o favorito. De acordo às pesquisas atuais.
Mas eleições não são vencidas apenas pelo candidato mais conhecido.
São vencidas pela combinação entre imagem pública, alianças, estrutura, financiamento, comunicação, tempo de campanha e capacidade de mobilização territorial.
Moro entra como líder.
Sandro Alex entra como o principal desafiante com capacidade real de crescimento.
O primeiro aposta na força do próprio nome.
O segundo aposta na força da máquina política construída por Ratinho Junior.
A campanha ainda nem começou oficialmente, mas a disputa já revela duas estratégias distintas: de um lado, o capital simbólico de um personagem nacional; de outro, a estrutura administrativa e municipalista de um grupo que governa o Paraná há quase uma década e que agora pode ser mudado!
É justamente do encontro entre essas duas forças que deverá surgir o próximo governador do Estado.



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