Lula e o problema de comunicação do PT com o povo brasileiro
- Marcio Nolasco

- 11 de ago.
- 5 min de leitura
Por Márcio Nolasco — Analista de Políticas Públicas
Existe um problema que o governo Lula talvez ainda não tenha compreendido completamente: não basta comunicar. É preciso ser compreendido.
E, principalmente, é preciso falar uma linguagem que faça sentido para quem está do outro lado da tela, no supermercado, no posto de saúde, no ônibus, no comércio, na periferia, no campo e nas pequenas cidades brasileiras.

O governo pode divulgar números positivos, anunciar investimentos, inaugurar obras e apresentar indicadores econômicos favoráveis. O PT pode produzir discursos, vídeos, campanhas digitais e mobilizar sua militância nas redes sociais.
Mas existe uma pergunta incômoda que precisa ser feita:
O brasileiro está enxergando aquilo que o governo acredita estar comunicando?
Essa talvez seja uma das maiores fragilidades políticas do governo Lula neste momento.
O Brasil dos números e o Brasil da vida real
A comunicação política do governo frequentemente parte de uma premissa:
apresentar resultados deveria ser suficiente para convencer a população de que o país está melhor.
O problema é que o eleitor não vive dentro de uma planilha.
Ele vive dentro de um orçamento doméstico.
Quando vai ao supermercado, não compra indicadores econômicos. Compra arroz, feijão, carne, leite, café e produtos de limpeza.
Quando procura atendimento médico, não encontra discursos. Encontra filas, burocracia ou atendimento.
Quando procura emprego, não quer apenas ouvir que a economia está crescendo.
Quer saber quanto vai ganhar e se aquele salário será suficiente para sustentar sua família.
É aí que surge o problema de comunicação.
O governo fala de conquistas. O cidadão fala de dificuldades.
E quando essas duas conversas não se encontram, abre-se um enorme espaço para a oposição.
O PT ainda fala para quem já está convencido?
Outro problema é a comunicação excessivamente direcionada à própria bolha política.
Nas redes sociais, existe uma dinâmica perigosa: partidos e militantes passam a produzir conteúdos para pessoas que já concordam com eles.
O resultado é uma sensação de força que nem sempre corresponde à percepção existente fora daquele ambiente.
É possível ter milhares de curtidas e, ao mesmo tempo, não conseguir convencer quem está no bairro, na fila do banco ou dentro de um pequeno comércio.
A comunicação política contemporânea exige mais do que mobilização de militantes.
Exige capacidade de dialogar com quem discorda.
E esse talvez seja um dos grandes desafios do PT.
O partido possui uma história, uma estrutura nacional e uma militância extremamente organizada. Lula continua sendo uma das figuras políticas mais conhecidas e influentes do país.
Mas justamente por isso, o partido não deveria ter como objetivo apenas falar com os seus.
Deveria tentar recuperar a capacidade de conversar com o brasileiro que não votou no PT.
Lula ainda consegue traduzir o governo para o cidadão comum?
Aqui existe outro ponto importante.
Lula possui uma característica política que poucos líderes brasileiros tiveram:
capacidade de comunicação direta com setores populares.
Sua trajetória política foi construída, em grande medida, através de uma linguagem simples, direta e facilmente compreendida.
Mas o governo atual enfrenta uma realidade muito mais complexa.
O Brasil de hoje é digitalizado, polarizado e extremamente desconfiado.
A informação chega ao cidadão por dezenas de canais simultaneamente.
Um discurso feito pela manhã pode ser confrontado à tarde por um vídeo de um cidadão mostrando uma realidade completamente diferente.
E o celular transformou qualquer brasileiro em potencial produtor e distribuidor de informação.
O governo já não controla a narrativa.
Esse tempo acabou.
O problema não é apenas o que o PT diz. É quem acredita.
A comunicação política não termina quando o governo publica uma informação.
Ela começa justamente naquele momento.
O cidadão pergunta:
“Isso é verdade?”
“Isso chegou até mim?”
“Isso mudou alguma coisa na minha vida?”
“Por que eu não estou percebendo?”
E, principalmente:
“Por que eu deveria acreditar nisso?”
Essa última pergunta talvez seja a mais importante.
Governos não vivem apenas de realizações. Vivem também de percepção.
Uma política pública pode ser tecnicamente correta e politicamente mal comunicada.
Uma obra pode ser importante e não ser percebida.
Um programa pode beneficiar milhões de pessoas e, ainda assim, não produzir reconhecimento político proporcional.
Isso acontece porque gestão e comunicação são dimensões diferentes da política pública.
A oposição entendeu uma coisa que o PT precisa entender
A oposição brasileira aprendeu, nos últimos anos, a explorar justamente o espaço deixado pela comunicação institucional.
Quando o governo demora para explicar alguma coisa, alguém explica.
Quando o governo não responde rapidamente a uma crise, alguém cria uma narrativa.
Quando o governo apresenta um número sem explicar seu impacto na vida das pessoas, alguém transforma aquele número em argumento político.
E a internet não espera o pronunciamento oficial.
A narrativa acontece com ou sem o governo.
Essa é uma mudança fundamental na política brasileira.
Não basta ter razão tecnicamente.
É necessário explicar.
Não basta anunciar.
É necessário demonstrar.
Não basta publicar.
É necessário conversar.
O PT precisa sair da comunicação de gabinete
Talvez o maior desafio seja abandonar uma comunicação excessivamente institucional.
O brasileiro não quer apenas saber quanto o governo investiu.
Quer saber:
“O que isso mudou para mim?”
Não quer apenas ouvir que determinado programa atende milhões.
Quer saber:
“Minha família pode acessar?”
Não quer apenas ouvir que o desemprego caiu.
Quer saber:
“Por que meu salário continua apertado?”
Não quer somente ouvir que a economia está crescendo.
Quer entender:
“Por que ainda está difícil fechar as contas no fim do mês?”
É nessa tradução que a política se ganha ou se perde.
O eleitor não é inimigo
Existe ainda um erro que partidos de esquerda e direita podem cometer: tratar a crítica como ataque político.
Quando alguém questiona o governo, nem sempre está defendendo a oposição.
Às vezes está simplesmente insatisfeito.
E esse cidadão precisa ser ouvido.
Uma democracia saudável não pode funcionar apenas através de torcidas organizadas.
O governo precisa conversar inclusive com quem não gosta dele.
Aliás, talvez seja justamente esse eleitor que mais mereça atenção.
Porque quem já está convencido não precisa ser convencido novamente.
Quem está em dúvida é quem decide uma eleição.
O risco para Lula
Lula continua sendo um político com enorme capacidade eleitoral.
Mas a força de sua comunicação pessoal não necessariamente resolve todos os problemas de comunicação do governo.
Existe uma diferença entre Lula comunicar e o governo ser compreendido.
E essa diferença pode se tornar decisiva.
Se o governo conseguir transformar suas políticas públicas em histórias compreensíveis, concretas e próximas da população, poderá recuperar parte do espaço perdido na disputa narrativa.
Se continuar acreditando que publicar números, discursos e anúncios oficiais é suficiente, poderá descobrir tarde demais que o eleitor já está ouvindo outra conversa.
A política brasileira mudou
O grande desafio do PT talvez não seja criar mais propaganda.
Talvez seja escutar mais.
Escutar o trabalhador.
Escutar o pequeno empresário.
Escutar o jovem.
Escutar o agricultor.
Escutar a periferia.
Escutar o funcionário público.
Escutar quem depende do SUS.
Escutar quem paga impostos.
Escutar, inclusive, quem votou contra Lula.
Porque comunicação política não é simplesmente dizer ao povo o que o governo fez.
É descobrir o que o povo está sentindo e responder a isso.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
O PT tem história, estrutura e experiência política.
Lula tem uma capacidade de comunicação que poucos políticos brasileiros possuem.
Mas nenhuma dessas vantagens substitui uma coisa:
a capacidade de entender o Brasil real.
O Brasil que não está nos palanques.
O Brasil que não está nos discursos.
O Brasil que não está nos algoritmos.
O Brasil que está todos os dias tentando pagar as contas.
É esse Brasil que vai decidir a próxima eleição.
E talvez a pergunta mais importante para Lula e para o PT não seja:
“Como podemos falar mais?”
Mas sim:
“Por que tanta gente já não está ouvindo?”
Essa é uma pergunta política.
Mas, acima de tudo, é uma pergunta de comunicação.
E quem não consegue responder a ela corre o risco de descobrir, nas urnas, que falar com o povo é muito diferente de falar sobre o povo.



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