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Flávio Bolsonaro: Arquitetura de poder - a engrenagem de comunicação por trás da sua pré-candidatura

Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP


Nos bastidores de Brasília, uma nova engrenagem começa a ser montada com precisão cirúrgica para impulsionar a pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). No centro dessa estratégia está um personagem pouco conhecido do grande público, mas profundamente inserido no circuito político da capital: o publicitário e ex-policial civil do Distrito Federal Marcello Lopes.


Conhecido nos corredores do poder como “Marcelão”, Lopes foi escolhido pessoalmente por Flávio para assumir a coordenação de comunicação da campanha presidencial. Amigo próximo do senador e um de seus conselheiros mais influentes, ele recebeu carta branca para desenhar toda a estratégia de comunicação, desde a operação digital até a propaganda eleitoral em rádio e televisão.


A decisão marca um movimento relevante dentro do núcleo político do Partido Liberal (PL): a tentativa de profissionalizar e centralizar a narrativa pública de um projeto que busca transformar o senador em herdeiro político do capital eleitoral construído por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.



Um operador nos bastidores da política


Marcello Lopes é proprietário da agência Cálix Propaganda e prepara sua saída formal da empresa para assumir integralmente a função até o início de junho.


Embora rejeite o rótulo de “marqueteiro”, sua missão na prática corresponde exatamente a isso: construir a identidade pública de um candidato que carrega um sobrenome poderoso — e também um alto índice de rejeição em parte do eleitorado.


Antes mesmo de assumir oficialmente, Marcelão já foi apresentado ao presidente do partido, Valdemar Costa Neto, e começou a estruturar a equipe responsável pela comunicação do projeto presidencial.


Nos bastidores da campanha, o plano é montar uma estrutura composta por profissionais consolidados do mercado político e digital. Entre os nomes que permanecem no núcleo da estratégia estão o especialista em comunicação digital Marcos Carvalho e o assessor de longa data do senador Fernando Pessoa.


Campanha guiada por dados


Integrantes da pré-campanha afirmam que a estratégia de comunicação será fortemente baseada em pesquisas qualitativas e análise de dados eleitorais. Esses levantamentos buscam mapear percepções espontâneas do eleitorado sobre o senador.


O diagnóstico inicial aponta um desafio central: a rejeição a Flávio estaria fortemente associada à imagem do pai, Jair Bolsonaro. A aposta da equipe é que essa resistência pode ser reconfigurada por meio de reposicionamento narrativo.


Na prática, isso significa tentar separar a figura do senador da imagem polarizadora do ex-presidente, ao mesmo tempo em que mantém o apoio do eleitorado bolsonarista.


A estratégia da “humanização”


Uma das linhas narrativas que começam a aparecer na pré-campanha envolve a tentativa de humanizar a imagem do senador.


Para enfrentar a rejeição registrada entre eleitoras mulheres, a campanha passou a dar maior visibilidade à esposa do senador, Fernanda Bolsonaro, e às duas filhas do casal. A narrativa central enfatiza a imagem de Flávio como “pai de menina”, numa tentativa de contraste simbólico com uma declaração controversa de Jair Bolsonaro, que no passado afirmou ter tido uma filha mulher após quatro filhos homens porque teria “dado uma fraquejada”.


A mensagem passou a ser incorporada diretamente ao marketing político. Em março, durante o lançamento da pré-candidatura ao governo de Rondônia do senador Marcos Rogério, Flávio apareceu usando uma camiseta com a frase “pai de menina”. A mesma peça foi utilizada novamente em um vídeo publicado em 1º de maio nas redes sociais.


Juventude como narrativa eleitoral


Outro eixo estratégico busca construir uma contraposição geracional no debate político nacional.


Aos 45 anos, Flávio tem sido apresentado pela equipe como um candidato jovem, narrativa que estabelece contraste indireto com o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que tem 80 anos.


Dentro desse enquadramento comunicacional, um dos slogans testados pela campanha é a ideia de que “o Brasil tem futuro”, associando juventude a renovação política.


Até mesmo episódios aparentemente espontâneos — como vídeos em que o senador aparece dançando de forma desajeitada — passaram a ser interpretados pela equipe como ativos de comunicação. Segundo assessores, esses momentos viralizaram nas redes e reforçaram a tentativa de projetar uma imagem de leveza e proximidade com o público.


A tropa digital bolsonarista


Além da estrutura formal de comunicação, a pré-campanha articula um ecossistema de defesa política nas redes sociais.


Uma espécie de “tropa de choque digital” formada por parlamentares bolsonaristas foi mobilizada para amplificar mensagens da campanha e reagir rapidamente a críticas ou informações consideradas prejudiciais ao senador.

Entre os nomes envolvidos estão os deputados federais:


  • Bia Kicis

  • Júlia Zanatta

  • Gustavo Gayer

  • Maurício Marcon

  • Carlos Jordy


O deputado Nikolas Ferreira também participou das articulações por videoconferência.


A lógica é simples: distribuir o embate político. Enquanto o senador preserva sua imagem institucional, aliados assumem confrontos diretos nas redes sociais, ampliando o alcance da narrativa bolsonarista no ambiente digital.


A construção de um herdeiro político


A movimentação revela mais do que apenas a organização de uma campanha. Ela indica a tentativa de construir uma nova etapa do bolsonarismo dentro da política nacional.


Se o projeto avançar, Flávio Bolsonaro poderá se tornar o primeiro herdeiro político direto a tentar transformar o capital eleitoral de Jair Bolsonaro em uma nova candidatura presidencial.


Para isso, a campanha aposta em três pilares:


  • reposicionamento de imagem,

  • comunicação orientada por dados,

  • mobilização digital altamente coordenada.


Nos bastidores de Brasília, a avaliação é que a eleição presidencial que se desenha poderá ser marcada não apenas pelo confronto de projetos políticos, mas também por uma disputa intensa de narrativas — cuidadosamente construídas por estrategistas de comunicação.


E, nessa arena invisível, nomes como Marcello Lopes podem ter um papel tão decisivo quanto os próprios candidatos.

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