Educação: Bomba Relógio nas Escolas
- Redação Bisbilhoteiro
- 23 de mar. de 2022
- 4 min de leitura
Por: Marcio Nolasco - Gestor de Projetos
Uma simples faísca no comportamento psicológico de nossos alunos basta para uma grande explosão comportamental.

O debate sobre a educação divide-nos, há realmente visões muito diferentes no mundo. Tenho minha filha na escola pública, não é mais ou menos infeliz por isso – minha filha sabe matemática hoje, com boas notas, porque também como os seus professores me dediquei a ensinar-lhe. A este fenômeno não se chama escola, mas reprodução social, ou seja, filho de sapateiro sapateiro será filho de engenheiro engenheiro será. A escola devia ser para reverter isto e dar acesso ao saber a todos – hoje isso está colocado em causa.
Chegamos ao ponto inenarrável das crianças estarem 5 a 8 horas na escola e mesmo assim precisam de trabalhos de casa, ajuda dos pais exaustos, aulas de apoio e explicações, academias e aulas extras de estudo – não respiram, não brincam e mesmo assim não aprendem mínimos. Os dados internacionais de educação revelam – mais de 54% de negativas a matemática e línguas de seus países de origem (aqui no Brasil o português) – um absurdo, que obviamente tem múltiplas causas mas o problema «não está em casa» porque em casa ninguém tem que ensinar matemática ou português ou fazer trabalhos de casa. E em casa as crianças e adolescentes passam maior parte do tempo nas redes sociais com seus celulares em mãos... salve o Tik Tok, Face e Insta.
Como é, que se está 5 a 8 horas na escola, se necessita de mais tempo de estudo é uma pergunta sem resposta razoável. Na verdade a escola espelha o método social e político do território, cidade onde esta inserida, de países onde predomina a mais valia ideologia absoluta – não se trabalha pelo saber, racionalização , salários bons mas pela exaustão – não fez em 6 faz em 8, não fez em 8 faz em 10! É a baixa produtividade aplicada ao vivo nos nossos filhos – como não aprendem com quem sabe bem e tem boas condições em 5 horas, ficam em frente dos livros mais 5. Chama-se a isto destruição de riqueza educacional e perda de produtividade, com o custo da infelicidade real das crianças que não brincam as horas que deviam e precisam e adolescentes que ficam sem socialização, aliás onde esta inserida a sociabilidade no currículo escolar?
Hoje em dia, professores se deparam com quadros de alunos de várias condições, como os de necessidades especiais aos chamados normais, todos de forma geral com comportamento psicológico abalado, muitos, não se espantem, em quadros visíveis de suicidas em potencial. Trabalho psico-pedagógico para alunos e pais, qual escola pública tem e com sucesso? Seu filho e família já participou de algum?

O problema tem muitas causas e duas delas são interdependentes: as condições laborais dos professores e o saber científico. Sem se resolver a questão das condições laborais não se vai resolver nada. Mas o mesmo se passa com o saber – quem ensina tem que saber ou então está a reproduzir uma sociedade classista em que quem frequenta colégios de 1500 reais mensais tem domínio sobre o saber e quem não os frequenta fica expropriado, empobrecido, entretido com um ensino rebaixado à sua «condição social».
A escola é segregada não só por bairros mas pela qualidade científica dos professores. Uma das origens dos problemas destes resultados medíocres está nas Universidades, e aos acadêmicos ficaria bem serem menos corporativos. As universidades têm cursos que há muito são insuficientes para formar com qualidade os professores – nos corredores todos assumem a questão, em público fala-se da excelência e de rankings, que crescem à medida que aumenta a ignorância dos nossos alunos, pelos quais somos co-responsáveis. Onde estão as equipes multidisciplinares qualificadas para trabalhar junto com os profissionais das escolas? Nunca tivemos isso!!! Qual motivo senhores políticos e doutores do Ministério e Secretarias estaduais de educação?
Nas escolas as turmas gigantes impedem um acompanhamento individual, há professores exaustos, nas públicas, esgotados física e moralmente. São mal pagos em todos os níveis, a começar pelos da primária e a acabar na precarização dos professores universitários; a burocracia é asfixiante. O que surpreende é que com tudo isto alguma coisa ainda funcione, ainda que mal. E o que funciona, insuficiente, é graças aos professores porque as políticas ministeriais da educação preferem dividir verbas com interesses políticos ao educacional. É um carro desgovernado a descer a ladeira sem freios. O relatório do UBS publicou a comparação dos salários no mundo. Nos países ricos a diferença entre o salário de um engenheiro e um professor primário é de 6 para 7 vezes e num país periférico de terceiro mundo (Brasil) é de 8 para 30 vezes.
A "política educacional" resolve esta bomba relógio atirando-a para longe: com exames e chumbos e coloca os jovens nos currículos alternativos onde aprendem a ser futuros barman e caixa de supermercado. Uma boa parte dos políticos, é incapaz de uma visão exigente do mundo, resolve ocultando a bomba, anulando as avaliações, os diagnósticos, ou diminuindo a sua importância. Como um médico meu amigo que teve um enfarte depois de análises aos triglicerídeos estarem com os valores duplicados – reagiu deixando de fazer análises.
É senhores (as), pais, alunos e escolas. O debate não termina aqui, vamos precisar de muito estudo sério e mudanças de fundo para reverter a situação, na verdade mobilização social sem a qual não vai haver nada a não ser promessas. Mas para começar a desarmadilhar a bomba relógio nas escolas, estas duas premissas são inamovíveis: condições laborais protegidas e saber científico. Há mais, muito mais, principalmente deixar ideologias negacionistas para os problemas sociais e educacionais no país. Mas sem isto não começaremos sequer a discussão, e o resultado serão alunos revoltados e com sérios problemas sociais...
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