“Bolsonaro é um candidato fortíssimo e as instituições estão em colapso”, alerta Marcos Nobre

Por: Laércio Portela, em 06/06/2021, 15:00 hrs.


ENTREVISTA:


Marcos Nobre é professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, autor do livro Imobilismo em Movimento: da abertura democrática ao governo Lula. Crédito: Divulgação


Para aqueles que acham que o presidente Jair Bolsonaro está enfraquecido e chegará cambaleante à eleição presidencial de 2022, uma conversa com o cientista social e professor da Unicamp Marcos Nobre serve como um choque de realidade. Para Nobre, o apoio a Bolsonaro só deve crescer daqui até a disputa eleitoral com a ampliação da vacinação e a melhora gradual da economia.


O professor, autor de livros que tentam jogar luz sobre o intrincado sistema político brasileiro, acredita que se Bolsonaro for reeleito ele vai fechar o país, seguindo os modelos autoritários dos chefes de governo de Polônia, Hungria e Filipinas. Se perder, vai mobilizar o apoio de parte das Forças Armadas, das polícias estaduais e das milícias para um golpe.

Para esses remédios amargos, ele receita a Frente Ampla, mas sem candidatura única. Uma frente que, no segundo turno, una as esquerdas e a direita não bolsonarista contra o presidente. “Ninguém consegue dar golpe contra 70% da população se esses 70% estiverem com o mesmo intuito de preservar a democracia. Por isso é que é difícil. Mas é o que precisa ser feito.”


Nobre vê as esquerdas divididas. O Psol quer o impeachment para mudar a correlação de forças. O PT quer manter a atual correlação de forças para confrontar Bolsonaro com Lula em 2022. Não haveria espaço nas eleições para um candidato outsider como Huck porque o presidente já ocupa esse lugar de anti-sistema. E Ciro Gomes? Bem, esse está atacando Lula para se cacifar como o candidato da direita não bolsonarista, mas “depois vai ter que sentar e conversar”.


O quanto o avanço do bolsonarismo nas polícias militares estaduais pode desestabilizar ainda mais a democracia brasileira?

O grande marco é o motim da polícia no Ceará em fevereiro de 2020. Esse motim foi uma coisa assustadora no sentido de que a gente conseguia ver ali o que aconteceu, por exemplo, na Bolívia, em que o golpe de estado não foi dado pelas Forças Armadas, mas pelas forças de segurança em geral, liderado por policiais. Esse é um precedente que deve nos deixar alertas. Aquele motim só não se reproduziu em outros locais do Brasil porque teve a pandemia. E na pandemia vimos também um desregramento das ações da polícia, tanto que o STF teve que intervir e dizer que não pode fazer operação em favela no Rio de Janeiro. O STF ter que entrar para regular uma coisa dessa significa que estamos numa situação muito difícil. É o prenúncio de que nós teremos um ano de 2022 ainda mais violento. Temos que ficar muito atentos a isso.