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Até o Fim da Rua

ou de como toda cura depende de quem se dispõe a carregá-la


Por Bruno Oliveira - Diretor da UNIPAR


Em janeiro de 1957, a rua ficou quieta.


Não era o silêncio bom da sesta. As mães do bairro combinaram uma coisa que nenhuma delas chegou a combinar: nada de rio, nada de piscina, nada de cinema, nada de aniversário. Ninguém sabia por onde o vírus andava, então proibia-se tudo. O verão, que era a estação da liberdade, virou a estação do medo.



Idalina tinha sete anos e achou aquilo perseguição pessoal. Passou a tarde na varanda contando caminhão, o pé descalço riscando a poeira vermelha, negociando com a mãe uma exceção que não veio. Dormiu bem. De manhã, com o café passando no coador de pano, a mãe chamou da cozinha.


“Levanta, menina.”

“Estou levantando, mãe.”


Estava. A perna esquerda é que não.


O horror da poliomielite não estava na contagem de mortos. Estava no sorteio. A maioria das crianças pegava o vírus e não sentia nada, ou sentia uma febre de dois dias que a avó explicava com dente nascendo. E então, sem aviso e sem motivo, uma entre muitas amanhecia assim. Duas vizinhas de cerca, mesma mangueira, mesma bicicleta: uma correu até os oitenta anos, a outra não.


No hospital da capital havia um corredor com cilindros de metal deitados, cada um com uma cabeça de criança saindo pela ponta e um espelho inclinado sobre o rosto, para que ela pudesse ver o mundo que acontecia às suas costas. Idalina teve sorte, e sorte ali era palavra esquisita: saiu andando, com um aparelho ortopédico de couro e aço que passou a vida chamando de sapato de ferro. A mãe cantou o caminho inteiro no ônibus de volta, sem se importar com quem olhava.


Quatro anos depois, do outro lado do mundo, Albert Sabin acertou o ponto de uma vacina que se tomava em duas gotas, na boca, de graça, sem seringa e com gosto de coisa doce. Em 1961, a humanidade já sabia exatamente como impedir tudo aquilo.


Guarde a data, porque o escândalo mora nela. Em 1988, vinte e sete anos depois, a pólio ainda paralisava trezentas e cinquenta mil crianças por ano. O problema estava resolvido no papel e continuava intacto na esquina.


Thomas Mann escreveu a melhor imagem disso sem saber que estava escrevendo sobre nós. Em A Montanha Mágica, um rapaz sobe até um sanatório nos Alpes para visitar o primo doente e ficar três semanas. Desce sete anos depois, sem conseguir explicar direito para onde foi o tempo. É exatamente o que o mundo fez com a pólio: subiu para uma visita curta e ficou vinte e sete anos lá em cima, achando que estava fazendo alguma coisa.


Entre descobrir e entregar existe um abismo, e abismo não se atravessa com genialidade. Atravessa-se com gelo, isopor, caminhonete, lista de nome, telefonema e sábado perdido. Foi essa conta, que não tem glamour nenhum, que o Rotary resolveu fazer.


É fácil rir. Um sino, um almoço, um estandarte, discursos que demoram mais do que deviam. Já fiz piada com o sino. O que eu não sabia é que aquele povo olhou o mapa da pólio e chegou a uma conclusão que ministério nenhum tinha coragem de dizer em voz alta: o que faltava não era ciência, era logística. E logística é coisa que dono de padaria, contador, dentista, professora e vendedor de tecidos fazem muito bem. Não se propuseram a curar ninguém. Propuseram-se a organizar um sábado. Depois outro, por quarenta anos.


Detalhe que eu demorei a descobrir: Mann era sócio-fundador do clube de Munique, e Sabin, do clube de Cincinnati. O homem que inventou a vacina não a patenteou, para que qualquer laboratório do mundo pudesse fabricá-la. Quer dizer que o cientista e o sujeito que carregava o isopor pertenciam à mesma agremiação de província, com o mesmo sino e o mesmo almoço. Só que um deles a gente conhece pelo nome.


O sábado de agosto de 1980 amanheceu com carro de som na porta da escola tocando marchinha fora de época, e ninguém achou esquisito. A fila dobrava a esquina. Tinha criança no colo, criança na garupa, criança pendurada no portão. Vendia-se pipoca. Uma senhora levou bolo de fubá por conta própria, porque fila com bolo anda mais rápido. Idalina, já professora naquela escola, mancava entre as carteiras encostadas na parede e achou graça: era o dia mais barulhento que aquele ginásio tinha visto, e o motivo do barulho era o mesmo que havia calado a rua dela em 1957.


Um homem suava dentro da camisa social, arrastando com as duas mãos um isopor grande demais para ele.


“O senhor é médico?”

“Sou vendedor de tecidos.”

“E está fazendo o quê aqui?”

“Trazendo o gelo.”


A enfermeira pingou as duas gotas na boca de um menino, que fez careta, cuspiu metade e voltou correndo para pedir mais, porque era doce. A mãe agradeceu à enfermeira, como era justo. Ninguém agradeceu ao gelo. Ninguém nunca agradece ao gelo. E sem cadeia de frio a vacina vira água morna com sabor de framboesa: a criança sai com o cartão carimbado, a mãe sai aliviada, e o vírus continua lá dentro, esperando.


Idalina entendeu na hora e perguntou se podia ajudar. O homem olhou o sapato de ferro, dessas olhadas rápidas que as pessoas acham que ninguém percebe, e perguntou se ela aguentava.


“Aguento desde os sete anos.”


Foram vinte e seis campanhas. Ela carregou isopor, bateu em porta de sítio, discutiu com pai que achava que gota de vacina dava fraqueza, aprendeu a fazer graça para a boca abrir. As crianças da escola apelidaram a bengala dela de espada, e ela gostou tanto do apelido que passou a bater com a ponta no assoalho para pedir silêncio.


Em 1989 o Brasil registrou o último caso. Em 1994 as Américas foram declaradas livres da doença, e ela ouviu no rádio da cozinha, com as mãos dentro da pia, e precisou sentar. Levou um tempo para achar o nome daquilo. Era alívio com quarenta anos de atraso.


Não foi o dinheiro que venceu aquela guerra, e dinheiro houve. Foi a teimosia de repetir a mesma tarefa sem trocar de bandeira no meio do caminho. Quase nunca o problema é não saber.


Quase sempre é não levar.


Idalina tem netos, e os netos têm bicicleta. Todo janeiro ela senta na varanda no fim da tarde e a rua está insuportável: bola na parede, campainha, mãe gritando nome inteiro de criança na esperança de que funcione. Nenhum daqueles meninos sabe o que é um pulmão de aço, nenhum vai agradecer por isso, e ela acha ótimo. Diz que é a melhor coisa que alguém pode deixar para trás: um perigo que virou palavra difícil na prova de biologia.


Fica a pergunta, e eu passo adiante: de quantas coisas nós já fomos salvos sem jamais ter sabido, e quem foi que carregou o gelo?



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