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A Máfia Política que Come o Dinheiro Público

Como o orçamento secreto mudou de nome, cresceu 68 vezes e continua escondendo os verdadeiros donos de bilhões de reais pagos pelo contribuinte brasileiro


Por Marcio Nolasco | Reportagem Especial


Caro Leitor,


O Supremo Tribunal Federal declarou o orçamento secreto inconstitucional.

A decisão foi considerada um marco histórico para a transparência das contas públicas brasileiras.

Naquele momento, milhões de brasileiros acreditaram que um dos mecanismos mais obscuros de distribuição de recursos públicos havia chegado ao fim.

Mas a realidade parece contar outra história.

Uma investigação da Transparência Brasil, divulgada em julho de 2026, revela que o sistema apenas mudou de aparência.

As chamadas emendas de comissão, especialmente aquelas protocoladas pelas lideranças partidárias, passaram a reproduzir praticamente a mesma lógica que levou o STF a extinguir o orçamento secreto.

O nome mudou.

O mecanismo permaneceu.

E o volume de dinheiro movimentado tornou-se ainda maior.

Hoje, bilhões de reais circulam pelo Orçamento da União sem que a população consiga identificar quem realmente decidiu o destino desses recursos.

É um modelo que desafia os princípios constitucionais da publicidade, da moralidade administrativa e da responsabilidade política.

Mais grave ainda: cria um ambiente perfeito para o fortalecimento do clientelismo, da troca de favores e da captura política do dinheiro público.

Enquanto isso, você cidadão briga com seus familiares, amigos pessoais e amigos de trabalho por conta de ideoligias de direita ou de esquerda, e os políticos de ambos os lados, "Comem" o dinheiro público com voracidade...



CAPÍTULO 1


A Constituição exige transparência. O sistema entrega opacidade.


A Constituição Federal determina que toda Administração Pública deve obedecer aos princípios da:

  • Legalidade;

  • Impessoalidade;

  • Moralidade;

  • Publicidade;

  • Eficiência.

A publicidade não é mero detalhe burocrático.

Ela existe porque dinheiro público pertence ao cidadão.

Quem paga impostos tem o direito de saber:

  • quem pediu determinada verba;

  • quem autorizou;

  • quem recebeu;

  • onde foi aplicada;

  • quais resultados produziu.

Quando qualquer uma dessas informações desaparece, desaparece também parte do controle democrático.

É exatamente isso que o novo relatório aponta.


CAPÍTULO 2


O orçamento secreto acabou... oficialmente


Em 2022, o Supremo Tribunal Federal concluiu que as chamadas Emendas do Relator (RP-9) eram incompatíveis com a Constituição.

Na prática, bilhões eram distribuídos sem identificação clara dos autores políticos.

A decisão buscava romper justamente com um sistema que dificultava:

  • fiscalização;

  • controle social;

  • responsabilização.

A expectativa era simples.

Nunca mais haveria dinheiro público circulando sem autoria conhecida.

Mas o cenário evoluiu em outra direção.


CAPÍTULO 3


O nascimento das "novas emendas secretas"


A Transparência Brasil identificou que, somente em 2025, a Câmara dos Deputados registrou:

  • 1.341 emendas de comissão sem identificação do parlamentar autor;

  • aproximadamente R$ 1,3 bilhão movimentados;

  • equivalente a 16% de todas as emendas de comissão.

Na documentação oficial aparece apenas a assinatura da liderança partidária.

O verdadeiro deputado responsável desaparece do processo.

Formalmente existe um documento.

Materialmente não existe responsabilidade individual.

É exatamente esse vazio que preocupa especialistas em transparência pública.


CAPÍTULO 4


Quem participa desse sistema?


O estudo identificou indicações realizadas por lideranças de diversos partidos.

Entre eles:

  • PP

  • União Brasil

  • Republicanos

  • PL

  • Avante

  • Podemos

  • Solidariedade

Já em 2026, praticamente todas as legendas passaram a utilizar o mesmo mecanismo, incluindo partidos da base governista.

O problema deixa de ser partidário.

Passa a ser institucional.

Independentemente da ideologia, a lógica permanece:

quem realmente indicou o recurso permanece oculto.


CAPÍTULO 5


O domínio da Comissão de Saúde


A investigação mostra que aproximadamente R$ 818 milhões dessas chamadas "emendas de liderança" tiveram origem na Comissão de Saúde.

Não se trata de qualquer comissão.

É justamente uma das áreas que movimenta os maiores volumes financeiros da União.

Hospitais.

Medicamentos.

Equipamentos.

Convênios.

Transferências.

Obras.

Quanto maior o orçamento, maior deveria ser o controle.

Entretanto, ocorre exatamente o contrário.


CAPÍTULO 6


Quando a investigação criminal encontra o orçamento


O cenário torna-se ainda mais sensível porque parte dessas estruturas aparece paralelamente em investigações conduzidas pela Polícia Federal.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, é investigado por suposta participação em esquema envolvendo aproximadamente R$ 119 milhões em emendas parlamentares.

Por determinação do ministro Flávio Dino houve bloqueio patrimonial correspondente ao valor investigado.

Segundo informações já tornadas públicas, as investigações apuram suspeitas de direcionamento de recursos utilizando estruturas da Câmara dos Deputados.

Também aparecem mencionados parlamentares do partido que teriam assinado parte das emendas sob investigação.

Importa destacar que todos os investigados têm assegurados constitucionalmente a ampla defesa, o contraditório e a presunção de inocência, inexistindo condenação definitiva nesses casos.


CAPÍTULO 7


Eduardo Cunha retorna ao centro das investigações


Em decisão recente, o ministro Flávio Dino também determinou o bloqueio de bens do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Segundo investigação da Polícia Federal, aproximadamente R$ 6 milhões teriam sido destinados, por meio de 21 emendas parlamentares, para municípios mineiros, mesmo após Cunha já não exercer mandato parlamentar.

O episódio demonstra que os problemas envolvendo emendas parlamentares não pertencem apenas ao presente.

Eles acompanham diferentes legislaturas.


CAPÍTULO 8


Os R$ 821 milhões que desapareceram


Talvez o dado mais alarmante do estudo seja outro.

Os pesquisadores afirmam que não conseguiram descobrir quem recebeu aproximadamente R$ 821 milhões em emendas executadas.

Não porque os recursos desapareceram fisicamente.

Mas porque o sistema simplesmente não permite acompanhar toda a cadeia documental.

Falta um identificador único.

Sem ele torna-se impossível ligar:

a indicação,

ao parlamentar,

ao empenho,

à transferência,

ao beneficiário,

e ao resultado final.

Na linguagem do controle público isso recebe um nome:

quebra da rastreabilidade.


CAPÍTULO 9


As chamadas "estatais do Centrão"


Grande parte dos recursos analisados foi destinada para execução direta através de órgãos federais como:

  • Codevasf;

  • Dnocs;

  • superintendências regionais do Ministério da Agricultura.

Esses órgãos vêm sendo objeto de sucessivas reportagens nacionais envolvendo disputas políticas pela distribuição de verbas públicas.

Segundo a Transparência Brasil, eles concentram parcela relevante dessas transferências de difícil rastreamento.


CAPÍTULO 10


O STF manda identificar. A Câmara continua ocultando.


Desde o final de 2024, o ministro Flávio Dino vem reiterando determinações para que todas as emendas possuam identificação nominal do parlamentar responsável.

A tese jurídica é simples.

O líder partidário pode protocolar uma indicação.

Mas isso não elimina a obrigação de revelar quem realmente pediu aquele dinheiro.

Sem identificação individual não existe responsabilidade política.

Sem responsabilidade política não existe controle democrático efetivo.


CAPÍTULO 11


O crescimento de 68 vezes


O dado talvez seja o mais impressionante de todo o levantamento.

Segundo a Transparência Brasil:


Após o STF extinguir o orçamento secreto, os pagamentos por meio das emendas de comissão cresceram 68 vezes.


Não se trata apenas de uma mudança administrativa.

É uma profunda transformação do fluxo do dinheiro público.

O orçamento secreto desapareceu formalmente.

Os recursos migraram para outro modelo.


CAPÍTULO 12


O Senado mostra que é possível fazer diferente


Enquanto a Câmara dos Deputados continua registrando parte das indicações apenas em nome das lideranças partidárias, o Senado Federal adota procedimento distinto.

Nas emendas de comissão do Senado consta o nome do parlamentar responsável por cada indicação.

Isso demonstra que identificar o autor não é tecnicamente impossível.

É uma escolha administrativa e política.


CAPÍTULO 13


O risco para a democracia


Dinheiro público sem autor conhecido produz consequências muito além das finanças.

Ele altera a própria relação entre eleitor e representante.

O cidadão perde a capacidade de saber:

  • quem destinou recursos ao seu município;

  • quem assumiu determinada prioridade;

  • quem deve responder pelos resultados.

Sem autoria, desaparece a prestação de contas.

Sem prestação de contas, fortalece-se a cultura da impunidade.

A transparência deixa de ser regra e passa a depender da boa vontade de quem controla o sistema.


CAPÍTULO 14


As recomendações da Transparência Brasil


A organização propõe medidas objetivas:


  • criação de um identificador único para cada emenda;

  • integração completa entre indicação e execução;

  • identificação nominal obrigatória do parlamentar autor;

  • extinção das chamadas "emendas de liderança";

  • suspensão dos pagamentos enquanto persistirem autores ocultos.

As recomendações procuram aproximar o sistema das exigências constitucionais de publicidade e controle.


CONCLUSÃO


Quando o Estado perde o rosto


A democracia não depende apenas do voto.

Ela depende da possibilidade permanente de fiscalização.

Cada real arrecadado em impostos pertence ao cidadão antes de pertencer ao governo.

Quando bilhões circulam sem autoria identificada, não é apenas a transparência que desaparece.

Desaparece também a responsabilidade política.

O Brasil já assistiu ao nascimento do orçamento secreto.

Agora acompanha o surgimento de um novo modelo que, segundo a Transparência Brasil, preserva a mesma lógica de opacidade.

A diferença é que o nome mudou.

O dinheiro continua circulando.

Os verdadeiros autores continuam escondidos.

E o contribuinte brasileiro permanece financiando um sistema que ainda resiste a revelar quem realmente decide o destino de bilhões de reais do Orçamento da União.


Cronologia dos principais fatos


2021 – Reportagens nacionais revelam o funcionamento do orçamento secreto (RP-9).

2022 – O Supremo Tribunal Federal declara as emendas do relator inconstitucionais por violarem princípios de transparência e publicidade.

2024 – O ministro Flávio Dino determina novas regras para identificação obrigatória dos autores das emendas de comissão.

2025 – A Câmara registra 1.341 emendas de comissão sem identificação nominal dos parlamentares responsáveis, totalizando cerca de R$ 1,3 bilhão.

2026 – A Transparência Brasil conclui que as chamadas "emendas de liderança" continuam operando com lógica semelhante ao extinto orçamento secreto e recomenda sua extinção.


O outro lado


Esta reportagem baseia-se em dados públicos divulgados pela Transparência Brasil, em decisões do Supremo Tribunal Federal e em informações constantes de investigações oficiais. As investigações mencionadas encontram-se em diferentes fases processuais e não representam condenação definitiva dos envolvidos. Todos os citados têm assegurados os direitos constitucionais ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.

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