top of page
572954291_18300745243267772_2025636869234957554_n.jpg

A infância já se foi, agora só as memórias daquelas primaveras em Cianorte.

Atualizado: 20 de out. de 2022

Por: Mirian Abreu - Colunista BNews - Portugal


ree

Reconheço que, por vezes, tenho a cabeça nas nuvens, mas plena e preenchida de boas lembranças.


Hoje elas vieram carregadas de saudades. Saudades da minha infância bem vivida, que deixou o gosto de “quero mais.”


O pensamento é mesmo uma energia mental poderosa, pois parece uma “coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar”, como bem cancionou Lupicínio Rodrigues.


E é aqui, nessa lusitana terra, senhora exclusiva da palavra SAUDADE, que a força desse sentimento faz-se vivo.


Saudade daquele tempo em que vivíamos no interior, na florescente Cianorte, cidade brasileira localizada no noroeste do Estado do Paraná. Terra de gente forte, resiliente, que apesar da catastrófica geada negra ter dizimado as plantações de café, principal produto que movia a economia da época nos idos anos 70, não se deixaram abater, e deram a volta por cima, tornando-se mais tarde um potente polo industrial da moda têxtil, ficando conhecida como a capital do vestuário.

ree

Tantos amigos, quantas lembranças… dos churrascos na fazenda Graúna, das serenatas, dos banhos refrescantes nos rios, especialmente no Rio dos Índios, nos dias de calor causticante.

Tantas histórias, tanta felicidade. Por isso, estou completamente de acordo com Milton Nascimento: amigo é para se guardar dentro do peito, debaixo de sete chaves! E eles têm lugar cativo aqui!


A fazenda Graúna estava localizada numa região conhecida por Três Vendas, com acesso pela estrada PR 323, e distanciava de Cianorte por mais ou menos 10 quilómetros. Ou seja, “É LOGO ALI”, resposta que meu pai encontrou para as nossas insistentes e repetidas perguntas sobre se estávamos a chegar. Queríamos sentir a liberdade do vento no rosto e o carinho do abraço dos meus avós Bento e Francisca, a avó Chiquinha, que lá moravam.


Meu pai, um leitor assíduo de clássicos literários, especialmente de escritores brasileiros, inspirou-se na obra Iracema, de José de Alencar para a escolha do nome da fazenda. Era lá, nesse seu recando favorito, que no final de tardes alvissareiras, no balanço de uma rede, deleitava-se com o canto da negra e brilhante GRAÚNA.


ree

Os encontros com os amigos do peito eram programados geralmente nos finais de semana. Havia uma espécie de “cerimonial informal “para a preparação daqueles eventos. Cada qual com a função que lhes cabia a fama. Nós, os “miudos”, tratávamos todos os” graúdos” por tio. E era o tio Valdecir Zamberlan o “churrasqueiro-mor”, entendedor de carne, que no açougue do Bataglia encomendava a costela da melhor qualidade. A minha memória gustativa não se esquece daquele sabor, sabor de saudade.


A cozinha da fazenda sempre foi o local onde as histórias eram servidas. Servidas à mesa, para o desfrute de todos. Era nessa sociabilidade que o gosto do estar junto se materializava.


ree

E as narrativas eram tão cativantes que prendiam a atenção de quem ali chegasse. As histórias fantasiosas e instigantes, do saudoso tio Hélio Gimaiel, engenheiro agrônomo de espírito livre, sempre a voar com a sua moto pelos caminhos do Paraná, eram imperdíveis.


Haviam também as “histórias/fábulas de pescador “, contadas pelo meu avô Bento, mas sempre com a cumplicidade (ou conivência ) dos companheiros de pescaria. Eram sempre relatos de peixes tão grandes que não me cabia imaginar, e também de como usavam de poderosos “encantamentos“ para fisgar dourados e outros gigantes aquáticos naturais do ecossistema daquela região do Rio Paraná. Eram mais que amigos, eram uma 7Irmandade!


É interessante perceber que, conforme o tempo passa, as memórias vão tornando-se mais contextualizadas e definidas, como um quadro já finalizado pelas pinceladas do tempo. Naquela idade de miúda, estava tão absorvida nas aventuras do presente que não sobrava tempo, nem experiência, para prender-me em lembranças. Porém, com a vivencia, aprendi a caminhar num passo mais lento; assim as lembranças conseguem me acompanhar. Todavia, o meu instinto aventureiro está sempre a sussurrar-me aos ouvidos em busca de novos caminhos e novas histórias.


Hoje sei a importância das histórias contadas pelos amigos que lá deixei, são frutos de suas experiências e fontes riquíssimas de um tempo vivido. Tesouros orais, pois, sem histórias, não há memórias. Esses saberes vinham carregados de sabores, e, nas trocas de receitas, as sociabilidades também eram revitalizadas, mantendo assim um elo permanente de convivência.


Mesmo sabendo que o ofício de churrasqueiro era uma atribuição inerentemente masculina, quis saber como era feita aquela maravilhosa costela assada feita pelo tio Valdecir Zamberlan, porém nunca me atrevi a fazê-la, talvez fosse meu inconsciente tentando seguir os “dogmas” do Sul e preservar a tradição.


Mas lembro-me que era simples: sal grosso e molho com alguns temperos verdes que, de vez em quando, era pincelado na carne. No entanto, o segredo estava no modo de assar e na qualidade da carne, que era colocada na churrasqueira bem cedo, praticamente de madrugada, e mantida lá em braseiro médio por umas 8 horas. Huummm… era um espectáculo de sabor!!!


Das lembranças escritas nos velhos cadernos de receitas, a Torta (tarte em Portugal) feita com bombons Sonho de Valsa, para mim, era suprema. Ficou famosa nos encontros na Fazenda, tornando-se uma sobremesa “clássica” indispensável.


Assim, por considerar que a partilha é a maneira mais eficaz de se perpetuar um aprendizado, compartilho a receita da torta Sonho de Valsa, para que não se perca no tempo e faça parte da mesa dos bons amigos.

Com carinho,

Mirian Abreu



** Acompanhe a minha página - SABORES E SABERES!


 
 
 

Comentários


WhatsApp Image 2025-10-16 at 12.39.47.png
WhatsApp Image 2025-07-08 at 15.46.52.jpeg

Nota do editor: os textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nos espaços “colunas” não refletem necessariamente o pensamento do bisbilhoteiro.com.br, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

* As matérias e artigos aqui postados não refletem necessariamente a opinião deste veículo de notícias. Sendo de responsabilidade exclusiva de seus autores. 

Portal Bisbilhoteiro Cianorte
novo-logotipo-uol-removebg-preview.png

Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

Selo qualidade portal bisbilhoteiro

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

© 2020 - 2025 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados. Site afiliado do Portal Universo Online UOL

 Este Site de é protegido por Direitos Autorais, sendo vedada a reprodução, distribuição ou comercialização de qualquer material ou conteúdo dele obtido, sem a prévia e expressa autorização de seus  criadores e ou colunistas.

bottom of page