A fábrica de diplomas: como universidades fantasmas do Paraguai enganam milhares de brasileiros
- Marcio Nolasco

- 9 de ago.
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Uma investigação sobre o esquema de faculdades e institutos irregulares que vendem diplomas de graduação, mestrado e doutorado a estudantes brasileiros — e como o golpe atravessou fronteiras e sistemas de fiscalização
Nos últimos anos, a fronteira entre Brasil e Paraguai se tornou território fértil para um tipo específico de fraude: instituições de ensino superior que não existem legalmente, ou que existem apenas no papel, oferecendo cursos de graduação, mestrado e doutorado a milhares de brasileiros. O apelo é sedutor — mensalidades mais baratas, processos seletivos simplificados, aulas em português e a promessa de que o diploma será validado no Brasil. Por trás dessa fachada, porém, escondem-se certificados forjados, credenciamentos inexistentes e um mercado paralelo que movimenta, segundo apurações jornalísticas, cifras milionárias.
Dois casos concentram boa parte do que se sabe sobre esse fenômeno: as fraudes envolvendo estudantes de Medicina na região de Ciudad del Este, e o esquema mais amplo — e mais recente — ligado à autodenominada Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS), comandada pelo brasileiro Ismael Fenner.

Parte 1 — O golpe dos “semestres pulados” em Ciudad del Este
Em setembro de 2023, a Interpol e o Ministério Público do Paraguai deflagraram a Operação Hipócrates em Ciudad del Este, prendendo dois brasileiros — de 45 e 28 anos — suspeitos de falsificar documentos acadêmicos. A ação apreendeu celulares, notebooks e uma quantidade significativa de documentos em um apartamento no centro da cidade.
O mecanismo era relativamente simples. Estudantes brasileiros de Medicina matriculados em universidades paraguaias apresentavam certificados falsos de conclusão de disciplinas ou semestres supostamente cursados em outras instituições do país. Com esses papéis fraudados, conseguiam “pular” um ou dois anos do curso, reduzindo tempo e custo da formação. O diretor do curso de Medicina de uma das universidades afetadas, a Universidad del Sol (Unades), foi quem levou o caso às autoridades depois que a instituição desconfiou da autenticidade da documentação.
Meses depois, o Ministério Público paraguaio formalizou denúncia contra 15 brasileiros por apresentação de certificados falsos. A denúncia partiu da Universidade Politécnica e Artística do Paraguai (UPAP), cujos funcionários notaram inconsistências em históricos escolares apresentados por alunos que pediam transferência. Ao consultar as supostas instituições emissoras, a UPAP constatou que os documentos não conferiam: a Universidad Privada María Serrana negou a autenticidade de certificados de sete dos investigados; a Universidad Privada María Auxiliadora e a Universidad Internacional Tres Fronteras negaram ter emitido os papéis atribuídos a outros três; e a Universidad Sudamericana também rejeitou a validade de documentos apresentados em seu nome.
Os estudantes ficaram proibidos de deixar o Paraguai sem autorização judicial e passaram a responder ao processo em liberdade, com comparecimento periódico ao juizado. Nesse episódio específico, o padrão de fraude não envolvia uma “faculdade fantasma” propriamente dita, mas a falsificação de documentos de instituições reais para abreviar cursos verdadeiros — uma variação do golpe que, ainda assim, revela a vulnerabilidade do sistema de reconhecimento de créditos acadêmicos entre instituições paraguaias.
Parte 2 — FICS: a instituição que “nunca existiu”
O caso mais amplo e mais grave, no entanto, é o da Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS), no centro de uma série investigativa do jornal Extra Classe iniciada em agosto de 2025 sob o título “Fábrica de Diplomas”.
À frente da suposta instituição está Ismael Fenner, gaúcho natural de Taquara (RS), radicado em Assunção. Ele se apresenta como diretor-geral da FICS, alegando que a instituição está sediada na capital paraguaia e devidamente habilitada pelo Conselho Nacional de Educação Superior (Cones) e pelo Ministério da Educação e Ciências (MEC-PY) do país.
O problema é que, segundo o próprio MEC paraguaio, a FICS nunca existiu legalmente naquele país — nem como razão social, nem como nome fantasia. A confirmação foi repassada por escrito ao Extra Classe e reiterada pelo Cones a autoridades brasileiras.
Como o golpe funcionava
O esquema se apoiava em três pilares:
1. Uso indevido do nome de instituições reais. Fenner teria se apropriado do nome do Instituto Superior Interamericano de Ciencias Sociales (Isics), uma organização paraguaia efetivamente habilitada — ainda que apenas para uma única carreira, hoje encerrada por decisão do Cones — apresentando a FICS como um simples “nome fantasia” do Isics. Isso dava aparência de legalidade a diplomas que, na prática, não tinham lastro em nenhum credenciamento válido.
2. Falsificação de resoluções oficiais. Segundo o promotor paraguaio Aldo Rodrigo Cantero Colmán, responsável pelas investigações, resoluções de habilitação do MEC paraguaio eram forjadas e exibidas aos alunos como prova de regularidade da instituição.
3. Exploração de uma brecha no sistema brasileiro de revalidação. Diplomas de mestrado e doutorado emitidos pela FICS eram submetidos à Plataforma Carolina Bori, sistema do Ministério da Educação do Brasil que depende do parecer de universidades brasileiras para reconhecer títulos obtidos no exterior.
Bastava que alguma instituição de ensino superior (IES) brasileira “chancelasse” o diploma para que ele passasse a valer formalmente no Brasil — abrindo caminho, por exemplo, para progressão de carreira de professores e servidores públicos.
O volume alcançado pelo esquema impressiona: apurações indicam que a FICS chegou a somar 915 diplomas de mestrado e doutorado reconhecidos por universidades brasileiras na Plataforma Carolina Bori, sendo 124 doutorados e 791 mestrados. Somente a Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) teria deferido 477 desses títulos. A Universidade Federal de Alagoas (Ufal), por sua vez, chegou a chancelar títulos da FICS, mas suspendeu e depois anulou 113 deles depois de receber um ofício da Polícia Federal informando que a instituição não era reconhecida pelo MEC nem pelo Conselho de Educação Superior do Paraguai.
A rede de captação no Brasil
A FICS não agia sozinha: contava com uma rede de representantes espalhados por estados brasileiros, responsáveis por captar alunos e divulgar cursos em grupos de WhatsApp e redes sociais. Um dos nomes mais citados nas reportagens é Radamese Lima (também identificado como Radamese Oliveira), que se apresentava ora como representante da FICS no Ceará, ora como simples “estudante” da organização — uma ambiguidade que investigadores apontam como estratégia comum de golpistas para dificultar sua responsabilização.
Para simular ainda mais legitimidade, o esquema recorria a selos de “acreditação” internacional, como o da International Accreditation Organization (IAO) — alvo de nota oficial da Agência Nacional de Avaliação e Acreditação da Educação Superior do Paraguai (Aneaes) em outubro de 2024, esclarecendo que a entidade não tem qualquer vínculo com órgãos oficiais nem autorização para acreditar cursos no país.
A confissão e a “fraude dentro da fraude”
Em setembro de 2025, Fenner assinou um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o Ministério Público do Paraná, confessando ter falsificado diplomas de uma outra instituição igualmente fraudulenta, a “Universidade Francis Xavier” (Unixavier), reconhecidos em cartório de Foz do Iguaçu. No depoimento, ele admitiu ter forjado a assinatura de terceiros em pelo menos 40 diplomas — episódio que expôs uma camada adicional do esquema: diplomas falsos sendo usados para respaldar outros diplomas falsos.
A escalada em 2026
O caso ganhou novos capítulos ao longo de 2026. Em março, o Conselho Nacional de Educação Superior do Paraguai interveio na estrutura de Fenner após denúncia do próprio Isics, confirmando que a organização operava à margem da legislação paraguaia (Lei nº 4.995/2013) e lesava centenas de estudantes, entre paraguaios e estrangeiros — a maioria brasileiros.
Em julho, uma operação de busca e apreensão do Ministério Público paraguaio, apoiada por informações do Ministério Público Federal do Brasil, interrompeu uma aula presencial com cerca de 100 estudantes brasileiros no hotel Crowne Plaza, em Assunção — um evento de “imersão” batizado de Imersão ISICS. O Ministério Público pediu a prisão preventiva de Fenner e a proibição de que ele deixasse o país. Dias depois, o promotor Cantero Colmán classificou Fenner como foragido, afirmando que ele não foi localizado durante a operação e que responde a diversas ações judiciais simultâneas.
Curiosamente, apurações mostraram que a disputa não envolve apenas Fenner contra as autoridades: há uma verdadeira “guerra” entre grupos rivais pelo controle do nome Isics/FICS, com processos judiciais cruzados e disputas sobre quem seriam os “legítimos representantes” da instituição — uma confusão que, segundo fontes policiais ouvidas pela reportagem, pode ser também uma tática deliberada de estelionatários para dificultar investigações e manter os golpes funcionando.
Parte 3 — Quem são as vítimas
O perfil que emerge das reportagens é revelador: boa parte dos estudantes captados pela FICS já ocupava cargos públicos no Brasil e buscava títulos de mestre ou doutor como forma de obter progressão funcional e melhores salários — um mercado especialmente atraente para esse tipo de golpe, dado o peso que titulações têm em planos de carreira do funcionalismo público brasileiro.
O drama de muitos desses estudantes só veio à tona quando universidades brasileiras que haviam chancelado os diplomas começaram a revisar e anular os reconhecimentos, após notificações da Polícia Federal. De um lado, esses profissionais viram-se de repente com titulações questionadas judicialmente; de outro, muitos afirmam ter sido induzidos a acreditar que estavam diante de uma instituição regular — a ponto de prestarem depoimento em delegacias como vítimas, não como cúmplices.
Some-se a isso um dado técnico preocupante: mesmo depois de a Polícia Federal abrir investigação e o MEC paraguaio negar formalmente a existência da FICS, diplomas da instituição continuaram sendo aceitos na Plataforma Carolina Bori — evidência de que a fiscalização brasileira reagiu de forma lenta e desigual, com universidades adotando posturas distintas diante das mesmas evidências.
Parte 4 — Por que o golpe funciona
Alguns fatores estruturais ajudam a explicar por que esse tipo de fraude prospera na fronteira e além dela:
• Assimetria de informação regulatória. Poucos brasileiros têm meios simples de verificar, em tempo real, se uma instituição paraguaia está de fato habilitada pelo Cones e pelo MEC-PY.
• Selos de acreditação fictícios. Organizações como a IAO emprestam uma pátina de legitimidade internacional a instituições que não têm nenhum reconhecimento oficial.
• Brechas em plataformas de revalidação. A dependência do parecer de universidades brasileiras individuais para validar títulos estrangeiros, na Plataforma Carolina Bori, criou um ponto único de fragilidade: bastou encontrar algumas IES dispostas a chancelar diplomas em massa para inundar o sistema com titulações fraudulentas.
• Ambiguidade estratégica dos operadores. Representantes que transitam entre os papéis de “vendedor” e “vítima” dificultam a responsabilização penal e alimentam narrativas defensivas em grupos de alunos.
• Registro fácil em jurisdições estrangeiras. Reportagens têm mostrado esquema semelhante usando o estado americano da Flórida, onde é possível registrar formalmente uma “universidade” no portal de corporações estaduais sem qualquer supervisão educacional real — mostrando que o Paraguai não é o único palco desse tipo de fraude, apenas o mais explorado por proximidade geográfica e cultural com o Brasil.
Parte 5 — Como se proteger
Para quem está avaliando estudar em instituições paraguaias — legítimas ou não —, alguns cuidados básicos, com base no que motivou os casos relatados:
• Consultar diretamente o site oficial do Cones (Conselho Nacional de Educação Superior do Paraguai) e do MEC-PY para confirmar se a instituição consta na lista de IES habilitadas — e não apenas confiar em prints ou PDFs enviados por representantes de vendas.
• Desconfiar de promessas de “aproveitamento” de semestres inteiros mediante apresentação de certificados de outras instituições, sobretudo quando a captação de alunos é feita por intermediários no Brasil, e não pela própria universidade.
• Verificar selos de “acreditação internacional” diretamente com os órgãos que supostamente os emitiram; entidades sem site oficial verificável ou sem reconhecimento por organismos multilaterais são sinal de alerta.
• Antes de buscar revalidação de diploma estrangeiro pela Plataforma Carolina Bori, checar se há notícias, notas oficiais do MEC brasileiro ou processos da Polícia Federal envolvendo a instituição de origem.
• Em caso de suspeita, buscar orientação do Ministério Público ou de órgãos de defesa do consumidor antes de efetuar pagamentos ou assinar contratos.
Conclusão
Os casos de Ciudad del Este e da FICS ilustram duas faces do mesmo problema: de um lado, a falsificação pontual de documentos para abreviar cursos reais; de outro, a criação de uma instituição inteira sem existência legal, capaz de emitir milhares de diplomas com aparência de legitimidade. Em ambos, o combustível é o mesmo — a distância entre estudantes brasileiros e os mecanismos de verificação da educação superior paraguaia, somada a falhas dos próprios sistemas brasileiros de reconhecimento de diplomas estrangeiros.
Enquanto autoridades de dois países tentam, cada uma a seu modo, desmontar esses esquemas — com indiciamentos, pedidos de prisão preventiva e cancelamento de chancelas —, milhares de brasileiros seguem em uma zona cinzenta: parte deles vítima inequívoca de um golpe bem arquitetado; parte deles enredada em processos judiciais que ainda vão levar anos para se resolver.
Fontes consultadas
• H2FOZ — “Paraguai processa estudantes brasileiros de Medicina por falsificação” e “Paraguai prende estudantes brasileiros de medicina por falsificação”
• Extra Classe (série “Fábrica de Diplomas”) — múltiplas reportagens de Marcelo Menna Barreto entre agosto de 2025 e julho de 2026, incluindo: “FICS é alvo de intervenção no Paraguai por operar como faculdade fantasma”; “Diplomas de universidade paraguaia investigada pela PF seguem reconhecidos em plataforma do MEC”; “Investigação no Paraguai expõe guerra por controle de esquema de diplomas falsos”; “Suspeito de emitir diplomas falsos no Brasil tem prisão cautelar solicitada no Paraguai”; “Suspeito de falsificação de diplomas está foragido”; “Responsável por diplomas falsos confessa crime à Justiça do Paraná”; “Rede de representantes espalhou suposto esquema de diplomação falsa no Brasil”; “Instituto paraguaio denuncia brasileiro por diplomas falsos e estelionato”; “Brasileiro acusado de falsificar diplomas deve ser impedido de deixar o Paraguai”; “Brasileiro que usava nome da Fics falsificou até diploma de faculdade falsa”; “Como golpistas transformaram a validação de títulos em negócio lucrativo”
• Brasil de Fato — “Como ‘fábricas de diplomas’ do Paraguai e dos EUA inundam o Brasil com títulos falsos”
• Diário de Foz — “Paraguai prende estudantes brasileiros de medicina por falsificação”
Este artigo foi elaborado a partir de reportagens publicadas por veículos brasileiros e paraguaios entre 2023 e 2026. Nomes de investigados citados são os já divulgados publicamente pela imprensa e por órgãos oficiais nas fontes acima.



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É um assunto bem preocupante, principalmente porque envolve pessoas que investem anos e dinheiro em uma formação que pode não ter validade nenhuma. O mais assustador é como esses esquemas conseguem funcionar por tanto tempo atravessando fronteiras. A investigação mostra também a importância de verificar muito bem a instituição antes de fazer qualquer matrícula. Informação e fiscalização são fundamentais para evitar que mais estudantes caiam nesse tipo de fraude. Esse é um tema que merece bastante atenção, assim como outros assuntos em spinmama.